
Este livro chegou até mim na forma de presente de
meu antigo professor de Literatura. Foi, de fato, uma surpresa. Há tempos
estava esperando um livro que me tirasse da zona da conforto mas - é claro! -
jamais pensei que seria dessa forma. A gente nunca espera dos melhores livros.
Trata-se de um tema difícil, entretanto, de imensa importância e relevância,
tanto nos Estados Unidos (o país em que se passa o enredo), quanto aqui no
Brasil: a violência contra a população indígena. Aliás, mais especificamente, a
violência contra a mulher indígena.
O protagonista é um pré-adolescente de 13 anos
chamado Joe Curtis, que, num trágico domingo de 1988, descobre que sua mãe,
Geraldine, havia sido vítima de um estupro brutal, dentro da reserva indígena em
que moram, na Dakota do Norte. Traumatizada, isola-se dentro de seu
quarto, sem conseguir falar sobre o que aconteceu. O pai de Joe (e marido de
Geraldine) é um juiz tribal e, furioso, tenta fazer de tudo ao seu alcance para
fazer justiça, mas se vê preso em artimanhas e mais artimanhas legais que
protegem os brancos e vulnerabilizam os nativos. Diante deste quadro, Joe,
junto com amigos, decidem investigar por conta própria, iniciando uma jornada
perigosa.
A autora, sendo ela mesma indígena, usa da literatura
para denunciar os abusos que sofre seu povo até hoje. É o seu tema principal.
Entretanto, A Casa Redonda me toca, sobretudo, pelo foco que é
dado à violência contra mulher, não apenas através do estupro violento cometido
contra Geraldine, mas também revelando a misoginia de cada dia sofrida por
todas as personagens femininas do livro, sendo estas violências de maior ou
menor grau.
Louise Erdirich é uma autora contemporânea que
tive o prazer de descobrir, apesar da pouca divulgação de seu nome. É uma pena,
pois a literatura indígena precisa ser lida, exposta, escancarada em todos os
lugares. Indico, portanto, a leitura desta
resenha, escrita por Francisco Quintero Pires para Folha de São Paulo, em que
comenta mais informações primordiais sobre a preparação da obra, sua recepção e
repercução, além de informações sobre a questão indígena nos EUA.
O livro é pesado, denso. Mas primoroso. É notável que cada palavra foi
escolhida com afinco para criar um clima obscuro, nebuloso, difícil de digerir.
Não é possível terminar a leitura com o ar tranquilo: haverá indignação,
revolta. E dor, muita dor.

Louise Erdrich é uma escritora e poetisa
estaduinense, nascida em 1954, dentro da tribo ojíbua, na cidade de Little
Falls, Minnesota. Ganhou o Pulitzer com o romance
The Plague of Doves, ainda não traduzido no Brasil. É proprietária de uma
livraria e também comercializa artesanato e remédios indígenas. Seu romance A
Casa Redonda recebeu o prêmio National Book Award em 2012.
Dados Técnicos:
Título original: The Round House
Autora: Louise Erdrich
Tradução: Daniel Estill
Editora: Alfaguara
Ano: 2014
Páginas: 408
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