Pular para o conteúdo principal

AS MENINAS DA ESQUINA

 



As Meninas da Esquina é um livro, no mínimo, poderoso. Para mim, tem a mesma preciosidade de um O Diário de Anne Frank, porém, infelizmente, pouco comentado e divulgado. O livro é uma coletânea de diários de seis meninas brasileiras, todas entre 14 e 20 anos, em situação de extrema vulnerabilidade. Natasha, Britney, Milena, Yasmin, Vitória e Diana são todas adolescentes que, desde muito cedo, descobriram a misoginia do mundo e tentam intercalar suas vidas de prostituição infantil, abuso sexual, gravidez precoce, extrema pobreza, dentre outros assuntos delicados com as crises e sonhos "normais" e esperados que toda adolescente passa.

Eliane Trindade, a jornalista que pensou o livro, coloca todo o panorama da vida dessas seis garotas durante o diário, tomando o cuidado para não revelar suas identidades. Aliás, fica claro, durante a leitura, que a revelação de seus verdadeiros nomes representaria um grande perigo para todas, visto que não é incomum que o crime seja um acontecimento diário na vida dessas meninas. De qualquer forma, as informações espalhadas por Trindade são interessantes e nos dá mais perspectiva. Por exemplo: a maioria das meninas não pôde escrever o diário, tendo que recorrer a gravações, devido ao grande nível de analfabetismo. Em contrapartida, é notável a diferença das meninas que se dedicam à arte, à poesia, à música, no processo de escrita e de formação e elaboração de pensamento. Outro ponto interessante é notar como a intervenção de ONGs e incentivos do governo ajudam no processo de diminuição da desigualdade (apesar da ajuda, nesses casos, ser escassa: quase ninguém se importa com crianças).

O mais interessante - e bonito, diga-se de passagem - na obra é como a miséria tende a ficar em segundo plano nos relatos. As meninas não escrevem para entreter os leitores elitizados (isso mesmo, nós), mas sim para elas mesmas. Falam de seus sonhos, medos, de suas paixonites, de suas fantasias, de seus segredos, de suas raivas, de suas dores, de suas alegrias. Durante 400 páginas, podemos observar essa transformação maravilhosa de 6 números nas estatísticas se tornando pessoas reais.



Existe um filme brasileiro baseado neste livro, chamado Sonhos Roubados, dirigido por Sandra Werneck. Vale avisar que não são obras idênticas: Werneck usou As Meninas da Esquina apenas como base para criar as três personagens principais, que representam um amálgama de todas as seis protagonistas do livro de Trindade. Existe o filme completo no Youtube e na Netflix. Coloco abaixo o trailer.



Dados técnicos:

Nome: As Meninas da Esquina
Autora: Eliane Trindade
Editora: Record
Ano: 2005
Páginas: 415


Comentários

Arquivo

Postagens mais visitadas deste blog

A CASA REDONDA

Este livro chegou até mim na forma de presente de meu antigo professor de Literatura. Foi, de fato, uma surpresa. Há tempos estava esperando um livro que me tirasse da zona da conforto mas - é claro! - jamais pensei que seria dessa forma. A gente nunca espera dos melhores livros. Trata-se de um tema difícil, entretanto, de imensa importância e relevância, tanto nos Estados Unidos (o país em que se passa o enredo), quanto aqui no Brasil: a violência contra a população indígena. Aliás, mais especificamente, a violência contra a mulher indígena. O protagonista é um pré-adolescente de 13 anos chamado Joe Curtis, que, num trágico domingo de 1988, descobre que sua mãe, Geraldine, havia sido vítima de um estupro brutal, dentro da reserva indígena em que moram, na Dakota do Norte.  Traumatizada, isola-se dentro de seu quarto, sem conseguir falar sobre o que aconteceu. O pai de Joe (e marido de Geraldine) é um juiz tribal e, furioso, tenta fazer de tudo ao seu alcance para fazer justi...

O POÇO DE SOLIDÃO

  Publicado em 1928, o livro O Poço da Solidão ( The Well of Loneliness , no original) causou grande alvoroço. Foi censurado na Europa e Estados Unidos por ser considerado obsceno  — porém, de sexo e promiscuidade, este livro nada possui. Trata-se simplesmente de uma história de amor. Então, por que tanta polêmica? Vocês já devem ter imaginado: é uma história de amor homossexual. Quando Anna Gordon, esposa do dono de uma grande e respeitada propriedade no vilarejo de Morton, soube que estava grávida, o casal entrou em êxtase de alegria. Chamariam o herdeiro de Stephen, e dariam-no a melhor educação que o dinheiro poderia pagar. Entretanto, Anna deu a luz a uma menina. Com leve decepção, o casal manteve o nome masculino à filha, e a educou como se fosse homem. Stephen passou a ter uma infância incomum para uma menina: praticava esgrima e equitação, usava roupas de menino e desenvolveu um pequena paixonite por uma das empregadas. O pai, percebendo as tendências homossexuais d...

A COR PÚRPURA

  Acredito que, se fosse para definir A Cor Púrpura em uma palavra, seria, sem dúvida, "clássico". Mas não pense que definir um livro tão multifacetado como este de Alice Walker seja tarefa fácil. Lançado em 1982, foi vencedor do prêmio Pulitzer no ano seguinte. Nele, lemos as cartas escritas por Celie para Deus e para a irmã, Nettie, nenhuma delas jamais enviadas. Celie é uma jovem negra estudianiense, em pleno início do século XX, abusada sexualmente pelo pai, que de repente se vê obrigada a casar-se com o Sinhô_. Lá, separa-se da irmã, a qual lhe promete escrever — com a passagem icônica "'Write!'/'Nothing but death can keep me from it!',  em português livre: 'Escreva!'/ 'Só a morte vai me impedir!" " —, mas nunca mais lhe retorna. Então a pobre moça se aquieta, e aceita o seu destino de dona de casa obediente e calada, a fim de não ser morta, como  a irmã. Porém sua vida muda ao acolher Shug Avery, a amante de seu marido: uma m...